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    A questão da competitividade

    Por Patrício Jr.

    Assim que os fundamentos da economia retornarem a bases seguras, o que já começa a ocorrer, com o estabelecimento de teto para os gastos públicos, o declínio da inflação e a consequente redução dos riscos e dos juros, o Brasil terá que voltar a atenção novamente para a busca da competitividade.

    O acerto na macroeconomia, com a reconciliação das políticas fiscal e monetária, visando ao crescimento sustentável, é um pressuposto indispensável. Contudo, para o crescimento sustentável, deverá ser acompanhado de um reiterado esforço para que sejamos eficientes e competitivos em nossas cadeias de produção. Infelizmente, ainda não é o que ocorre hoje.


    Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) recentemente divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo revela que o país está na penúltima posição num ranking de competitividade formado por 18 países com economias semelhantes e que disputam mercados com nossas empresas e produtos. Estamos à frente apenas da Argentina, e atrás de Peru, Colômbia, Índia, África do Sul, Turquia, China, Chile... Lideram o ranking Canadá, Coréia do Sul e Austrália.

    Estruturada a partir de nove critérios que influenciam a capacidade de competição, a pesquisa nos permite fazer um raio x dos principais problemas a enfrentar e identificar onde melhorar. Em quatro indicadores, o país está muito mal, tendo piorado de 2015 para 2016. São eles: disponibilidade e custo de mão de obra; ambiente macroeconômico; competição e escala de mercado doméstico; e tecnologia e inovação.

    Nos itens em que pioramos, conforme mencionados acima, ficam claros os efeitos, sobre a competitividade de nossas empresas, da deterioração do ambiente macroeconômico, a partir de diretrizes e políticas equivocadas adotadas nos últimos anos e que só começaram a ser efetivamente revertidas no final de 2016. Sim, porque uma conjuntura desfavorável reduz a escala do mercado doméstico e, com isso, também a disponibilidade de recursos para investimento em tecnologia e inovação.

    Quanto à disponibilidade de mão de obra, um dos indicadores em que houve piora de 2015 para 2016, podemos dizer que esse dado tem um grau maior de complexidade. Ora, quando há retração da economia, como a que enfrentamos nos últimos dois anos, há, em tese, uma maior oferta de mão de obra — aqueles trabalhadores que ficaram desempregados e que estão à procura de recolocação no mercado.

    Ocorre, contudo, que, para avançar em competitividade e disputar mercados, o Brasil precisará, cada vez mais, de uma mão de obra qualificada, capacitada e bem treinada. Note-se que, num período de retração, deveria haver mão de obra disponível. Mas, como a demanda é cada vez mais por profissionais qualificados, a pesquisa apontou que houve piora nesse item. Outro fator que pesa é o alto custo do emprego no Brasil, já que os encargos trabalhistas equivalem a mais do que o dobro do salário do empregado.

    Eis aí um dos grandes desafios que a nossa economia enfrentará a partir da retomada do crescimento. Salvo iniciativas setoriais ou empresariais isoladas, ainda não damos à educação e à capacitação a importância estratégica que merecem ter na trajetória do desenvolvimento. O Brasil precisa, mais do que nunca, investir em pessoas.

    Examinemos os indicadores que se mantiveram estáveis na pesquisa, sem piora. São eles: disponibilidade de capital; infraestrutura logística; peso dos tributos e ambiente de negócios. Está claro que um relativo avanço em competitividade também poderá vir da melhora desses indicadores em decorrência da própria mudança operada na política econômica. O exemplo mais claro está na maior facilidade de financiamento, para investimento, via redução da taxa de juros.

    Mas é importante remarcar que o salto significativo, em termos de competitividade, somente ocorrerá com as reformas estruturantes de nosso arcabouço legal, sobretudo no que diz respeito às legislações trabalhista e tributária. Temos, portanto, dois horizontes condicionando a nossa competitividade e, por decorrência, o nosso desenvolvimento: um de curto e outro de longo prazo.

    No curto prazo, restabelecemos o norte da política econômica, com resultados já palatáveis: queda da inflação, maior confiança dos agentes econômicos, redução da taxa básica de juros. No longo prazo, começamos a delinear que mudanças de fundo são imprescindíveis para que o crescimento dê-se em bases seguras e perenes. Nesse sentido, está claro que o país deve reequacionar a sua estrutura fiscal, estancando déficits, o que passa necessariamente pela reforma da Previdência, que deve ser votada este semestre no Congresso.

    Reduzindo os gastos, poderá igualmente pensar na diminuição da carga tributária, via uma nova reforma que viria a simplificar um sistema hoje caótico. Esse sistema gera custos desnecessários, pelo excesso de obrigações acessórias, e contribui para minar a competitividade. Se há uma boa notícia, é que todas essas medidas primordiais ou estão em curso ou se encontram em discussão no governo e no Congresso.

    Retornemos para mais um dado da pesquisa CNI, este de caráter micro, não macro. O levantamento informa que o item infraestrutura logística não piorou de 2015 para 2016. Melhor assim. Mas isso não significa que esse segmento esteja satisfatório. No momento em que a economia voltar a crescer, alguns sérios gargalos estruturais voltarão a aparecer, minando a eficiência e a competitividade.

    Isso significa que, paralelamente a tudo que está sendo feito, o governo deve adotar medidas que simplifiquem e agilizem ainda mais os investimentos em portos, aeroportos, ferrovias e rodovias. Não estamos neste caso falando de macroeconomia, mas de ajustes nos marcos regulatórios e ações pontuais. Assim como o investimento em pessoas, a desburocratização deve estar na ordem do dia. Fonte: Revista Portos e Navios – www.portosenavios.com.br) 
    Patrício Jr. é Presidente da Associação dos Terminais Portuários Privados (ATP)

     

    Joana Wightman
    Coordenação de Comunicação ATP
    Contatos: (61) 3032-1931 / 3201-0880 / 98483-5503
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    Publicado em 16/03/2017
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